
O LIVRO EM PESSOA
BiblioSense
LER para SER

SILÊNCIOS
Escuto o vento. Invento
silêncios para o escutar
e descubro como nascem
as folhas novas das árvores,
as ervas daninhas
parentes afastadas dos frutos
que se reinventam no silêncio
quando as piso por pisar

A MENTIRA
A mentira é uma arte
ninguém se atreve a viver sem mentir
os olhos são como a lua,
fingem iluminar-te
Acreditar não é sentir,
a decisão nunca é tua
A mentira é uma arte
ninguém se atreve a desmentir, o céu
nunca foi azul celeste
A verdade vai devorar-te
a sombra da palavra, réu,
incendeia o que disseste
A mentira é uma arte
corre mundo e mundo afora
foragida e sentinela
Eu sou capaz de jurar-te,
a jura não me devora
prova que não és bela
A verdade não tem história
não dá trabalho a ninguém
A mentira sabe a vitória
mentirosamente ámen

AS SENHORITAS DE MORAL DISTRAÍDA
Meus olhos inundados de Berlim
aquele beijo pintado no Muro
avenidas da liberdade cruzam-se em mim
um sorriso que chega do passeio escuro
Onde reza a história não há Deus
todas as palavras saem dos teus dedos
coluna da vitória, anjo de ouro num adeus
no bosque negro semeei meus medos
Meus olhos inundados de Berlim
não se perdem nos dois pontos cardeais
Brandemburgo de glórias sem fim
os bonecos do semáforo tão originais
No beco colorido dos artistas
segredaste uma promessa, sim ou não
Tenho pressa, tenho pena, não insistas,
senhorita eu não compro ilusão
Olhei para ti enquanto partia
o desejo de passagem ardia
tua beleza, porém, permanecia
na penumbra dessa lua em agonia

IOGA
Fecha os olhos
não penses em ti
engole dez sapos
e sorri
imagina-te a folha que cai no Outono
e um cão ao passar de ti se faz dono
lavra o chão
inventa a semente
esquece o coração
no poente
imagina-te oco no oco da fumaça
e a abelha voando seu voo te trespassa
perde os sentidos
no sexto sentido
e volta ao princípio
do tempo perdido
apaga o poema
abre os olhos
e vê quem te ama



